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Antonio, da prisão para os resgates no RS

A tragédia no Rio Grande do Sul me trouxe, quase acidentalmente, a lembrança de um caso marcado em minha memória. Ao acompanhar a cobertura jornalística da enchente, identifiquei um ex-cliente entre os voluntários que resgatavam pessoas ilhadas em Porto Alegre. Vou chamá-lo pelo nome fictício de Antonio.

 

Na primeira vez que o vi estava algemado em uma delegacia acusado de tentativa de roubo a caixa eletrônico. Sua primeira frase foi: "Doutor fiz a pior merda da minha vida…”. Por algum motivo que a psicologia talvez possa explicar, muitos jovens em situação financeira confortável têm um certo fascínio pelo mundo do crime. Antonio foi um deles, a ponto de ser convidado para ser “piloto" da empreitada criminosa. Convite aceito, até pela inexperiência acabou preso.

 

Apesar de tê-lo instruído quanto às palavras e postura corretas no momento do interrogatório, ao ser indagado sobre sua participação no crime repetiu à juíza a mesma frase que me disse na delegacia. Creio que o ineditismo e espontaneidade de sua resposta tenham contribuído para sua libertação, com a concessão pela juíza de liberdade provisória.

 

Antonio não voltou para a prisão. Da pena imposta, foi descontado o período já cumprido, e o restante cumpriu em regime aberto. O jovem concluiu a faculdade interrompida no período em que esteve preso, foi trabalhar com o pai e ajudou a expandir um negócio já bem-sucedido, a ponto de agora poder dedicar algumas semanas da sua vida à ajuda aos flagelados gaúchos.

 

Localizei-o nas redes sociais e passei a acompanhar seus relatos. Logo nos primeiros dias da tragédia foi para o Rio Grande do Sul, ficou por dez dias ajudando no resgate, utilizando o próprio jet ski e um barco levado por um amigo. Voltou para Campinas, organizou uma arrecadação de doações que encheram uma carreta e retornou para acompanhar a entrega.

 

A história de Antonio serve de exemplo sobre a importância de não se estigmatizar pessoas que cumpriram pena de prisão. Com apoio e oportunidades adequadas, todos têm a capacidade de se redimir do erro cometido e impactar positivamente suas comunidades.

 

Há uma postagem em que uma senhora abraça Antonio chorando quando ele a resgata. Lembrei-me da mãe dele no nosso primeiro encontro na frente da delegacia, no dia da prisão. Ela chorava e repetia “... meu filho é uma boa pessoa doutor...”. Sim, dona Silvia, seu filho é uma boa pessoa.

 

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